Prosseguimos as nossas investigações sobre o Retrato na obra de Júlio Pomar, para a próxima exposição do Ateli…

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Prosseguimos as nossas investigações sobre o Retrato na obra de Júlio Pomar, para a próxima exposição do Atelier-Museu, e partilhamos um texto de Sara Antónia Matos, directora do AMJP, sobre o retrato de Mário de Sá-Carneiro que o artista realizou em 2014-15, na última fase da sua vida.

"Retrato de Mário de Sá-Carneiro", 2014-2015
Acrílico, pastel e carvão sobre tela
81 x 65 cm

As imensas relações de Mário de Sá-Carneiro com o universo artístico, incluindo o das artes-plásticas, seriam suficientes para Júlio Pomar retratar este escritor. É sabido que, juntamente com Fernando Pessoa, Almada Negreiros e outros intelectuais, aquele poeta integrou o primeiro grupo modernista português, responsável pela edição da revista literária Orpheu, da qual o grupo absorveu o nome, ficando conhecida como a «Geração d’Orpheu». Influenciada pelo cosmopolitismo e pelas vanguardas culturais europeias, esta geração pretendia escandalizar a sociedade burguesa da época, algo que conseguiu atingir com a publicação de apenas dois números da revista (Março e Junho de 1915) – um verdadeiro escândalo literário à época, que agitou o meio cultural português.

Recorde-se ainda que, desiludido com a «cidade dos estudantes», Coimbra, Mário de Sá-Carneiro foi para Paris a fim de prosseguir os estudos superiores. Porém, rapidamente deixa de frequentar as aulas na Sorbonne, dedicando-se a uma vida boémia. Na capital francesa, conhece Santa-Rita Pintor e estabelece outras relações que viriam a determinar grande parte da sua obra poética, da qual se destacam os poemas futuristas, baseados na sonoridade das palavras e na vontade de expressar o avanço tecnológico e industrial. Ora, é neste âmbito que surge a motivação para Júlio Pomar realizar o retrato de Mário de Sá-Carneiro.

Na sequência do que já havia feito a propósito do dia nacional da poesia, no Teatro Nacional Dona Maria II, o actor João Grosso, numa performance que não deixou indiferente o público, no dia 4 de Outubro de 2014, no Atelier-Museu, interpretou «Manucure», escrito por aquele poeta para a revista Orpheu, como forma de homenagem ao pintor Júlio Pomar. Estava lançado o estímulo para Pomar se deixar levar pelo som sincopado das palavras (ele que também faz uso delas se não ao modo de um futurista, à maneira de um dadaísta) e imaginar o rosto da figura que está por detrás delas. Os ritmos e as aspirações futuristas trouxeram à pintura outros horizontes. Os sons, os ruídos, a energia e os cheiros podiam agora pintar-se, num dinamismo e desdobramento de formas, cores e planos, por vezes adquirindo as composições estridências gritantes. Indo ao encontro disso, mas numa linguagem contemporânea, Pomar reveste o retrato do poeta de vermelhos estridentes, castanhos, verdes, estranhos à tez comum. A figura emerge e confunde-se com o fundo, dando rosto ao futurista, modernista, excêntrico, boémio, desgraçado, vítima de seus desesperos e frustrações: Mário de Sá-Carneiro.

Sara Antónia Matos

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