“O que me enrugava a disposição era tão intraduzível como isto: a imagem do meu estúdio em Paris, a dizer cois…

“O que me enrugava a disposição era tão intraduzível como isto: a imagem do meu estúdio em Paris, a dizer coisas indigestas: «Meu filho, meu filho, porque me abandonaste?» O estúdio vazio, com as marcas todas de espaço onde um homem vive só.
Tentei concentrar-me no meu aqui-agora, que era aquela estação terminus. Então ocorreu-me (inesperadamente) que uma estação terminus é sobretudo como um sino: pode repicar de casamento ou dobrar a finados.
Senti " concreta – a possibilidade de retomar viagem na direcção de todas as outras cidades do planeta. Seria isso o que me arrepanhava? O arrepio da encruzilhada quando um tipo se calha está perdido? Uns anos antes tinha sentido coisa mesmo assim, em Istambul. Mas com direcção concreta, a dizer-me «vem daí»: por um triz de triz estivera para tomar o transiberiano Istambul-Pequim. Ao lá disto, a ver.”

in Square Tolstoi, 1981
Nuno Bragança, escritor, nasceu neste dia 12 de fevereiro, no ano de 1929. A sua primeira obra, “”, foi editada em 1969. Em 1963 assinou com Paulo Rocha o argumento de “Os Verdes Anos”

📷Nuno Bragança fotografado por Gérard Castello-Lopes


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