O QUE ESTA OBRA ME CONTA É por Lisboa que começo as minhas notas biográficas, seguindo-se-lhe a minha data de…

O QUE ESTA OBRA ME CONTA

É por Lisboa que começo as minhas notas biográficas, seguindo-se-lhe a minha data de nascimento. É o onde e o quando do início da minha vida. É o meu Lar Doce Lar. Além disso, Lisboa, para mim, é também uma vista de longe. Um horizonte a partir da margem esquerda do Tejo. E tece-se, nesse sentido, com esta vista panorâmica que Cristina Ataíde traçou da cidade, tomada de longe para melhor lhe captar o contorno do corpo, desenhando-a depois, traço a traço, num labor de paciência e amor — porque só o amor permitiria tantas horas a desenhar um rosto que ocupa quase 30 metros de desenho. Esse rosto é aqui vermelho, como é vermelho o itinerário que a viajante Cristina Ataíde marca nas suas montanhas, aquelas cujo corpo os seus pés já trilharam. Esta é a cidade de Cristina Ataíde que, embora nascida em Viseu, para cá veio jovem estudar para as Belas Artes. Este é o seu Lar Doce Lar.
Escultora de formação, o seu desenho toma com frequência o corpo do mundo para sobre ele se edificar. Ela risca sobre troncos de árvore, sobre pedras, sobre caminhos, captando deles a pele rugosa e única. Ela capta os vestígios da luz na fotografia, os sinais das muitas vidas que mergulham nos rios. Ela molda o papel para o tornar escultura e molda o desenho para nos dar esse rosto volumétrico da cidade, calcorreando-a, como caminhante que é. E entre esses passos ela conhece o corpo da cidade e só assim pode ela depois usar a fotografia como memória para criar uma tão vasta e vívida — e vivida — panorâmica.
Olho para esta paisagem vermelha, como que tingida por um pôr de sol poderoso, e não posso deixar de recordar o poema de Eugénio de Andrade. Como não tenho boa memória para a poesia, é a música que me socorre e é nela que me apoio. E vem-me essa lembrança de um disco do Trovante, de 1981, em que o poema me acompanha os passos.
“Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes…"
Eu sei. É uma rapariga
Descalça e leve,
Um vento súbito e claro
Nos cabelos,
Algumas rugas finas
A espreitar-lhe os olhos,
A solidão aberta
Nos lábios e nos dedos,
Descendo degraus
E degraus
E degraus até ao rio.”

Sigo o desenho com lentidão. E ouço, com clareza, os passos da desenhadora. Ou o seu contínuo, amoroso, riscar o corpo de Lisboa no papel.

Emília Ferreira

Cristina Ataíde
Desenho “Lar Doce Lar/ Home Sweet Home… 2012 (skyline de Lisboa)
Desenho em lápis glasochrom sobre papel impresso
14,5 x 1,82 cm (x2)
MNAC Inv. 4469

Créditos fotográficos: ©Cristina Ataíde, 2020.
Obra produzida com o apoio do Carpe Diem, Arte e Pesquisa, em 2012, para o Palácio Marquês de Pombal.


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