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É com profundo pesar que o Museu do Fado recebe a notícia do falecimento de Carlos Gonçalves (1938-2020), guitarrista de técnica e sensibilidade musical notáveis, que fica na história do Fado como o compositor de diversos arranjos e temas inesquecíveis para a voz de Amália, com especial destaque para os eternos "Lágrima" e "Grito". Até sempre, querido Mestre!

Carlos Gonçalves, de seu nome completo Carlos dos Santos Gonçalves, nasceu em Beja, no dia 3 de Junho de 1938. Influenciado pelo pai, que tocava bandolim, cedo começou a interessar-se por música tendo, para o efeito, aprendido solfejo. Chegou mesmo a tocar clarinete na Banda Capricho, em Beja, mas a sua paixão era a guitarra portuguesa, que se habituou a ouvir nos programas emitidos pela Emissora Nacional, através dos mestres José Nunes e Raul Nery, suas referências fundamentais.
Oriundo de uma família modesta, não dispunha de rádio e era numa taberna próxima que, ainda jovem, ia ouvir religiosamente os programas semanais de 20 minutos de fados e guitarradas. Com excelente ouvido e memória musicais, captava os sons que ouvia e, de seguida, corria para casa, pegava na guitarra que lhe haviam emprestado e tentava reproduzir, dentro dos moldes possíveis e à sua maneira, o que ouvira na rádio. Foi desta forma, quase autodidacta, que conseguiu aprender a tocar guitarra portuguesa, revelando simultaneamente uma enorme destreza técnica.
Em 1957 a família muda-se para Lisboa. Neste período, Carlos Gonçalves revela-se já um excelente executante da guitarra portuguesa e inicia o circuito das casas típicas. Passa pelo Café Lisboa, onde deu os primeiros passos no fado vadio, mas a sua estreia acontece na Adega da Anita, localizada no Parque Mayer e propriedade de Anita Guerreiro, ao que se segue o elenco do restaurante típico Lobos do Mar, na Calçada de Carriche. Aos 20 anos de idade profissionaliza-se como guitarrista e assina contrato com a casa típica "A Viela", onde toca todas as noites. Nunca se desligando do circuito das casas de fado actua em casas como Márcia Condessa, A Toca, Severa, Folclore, Taberna do Embuçado, Arreda e Picadeiro, locais onde acompanhou grandes figuras como Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Argentina Santos, Beatriz da Conceição, Fernanda Maria, Fernando Maurício, Alfredo Marceneiro, Fernando Farinha, Carlos Ramos e Max, entre muitos outros.
Entre 1968/69, torna-se guitarrista de Amália Rodrigues, integrando o grupo liderado então por Fontes Rocha. A sua técnica e sensibilidade musical evidenciam-se na composição de diversos arranjos e de músicas para a voz da fadista, com especial destaque para “Lágrima” e "Grito". O trabalho de colaboração entre Carlos Gonçalves e Amália Rodrigues resultou em inúmeras gravações e recitais nas salas mais prestigiadas do mundo. Com Amália Rodrigues, Carlos Gonçalves tocou na Europa, Japão, Austrália, Brasil, E.U.A., Canadá, Índia, Macau e Coreia do Sul, entre muitos outros países.
Em pleno século XXI, viria, a apresentar-se em vários concertos no Museu do Fado. Músico profundamente exigente, autor e intérprete superior com uma vasta obra discográfica, Carlos Gonçalves leccionou na Escola do Museu entre 2001 e 2003. Em 2004, o seu álbum a solo "A Essência da Guitarra Portuguesa” (CNM) reiterava o seu talento de excepção, enquanto compositor e intérprete.
Faleceu neste dia 23 de Março de 2020, deixando o mundo do Fado mais triste. Até sempre!




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