Atelier-Museu Júlio Pomar: OBRA DE ARTE ………. Todas as segundas-feiras, partilhamos imagens e informaçã…

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Atelier-Museu Júlio Pomar: OBRA DE ARTE

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Todas as segundas-feiras, partilhamos imagens e informação sobre obras de Júlio Pomar.

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Hoje, voltamos a partilhar um pequeno texto de Ana Anacleto, a pedido do Atelier-Museu Júlio Pomar, sobre um desenho de Júlio Pomar, “O Engraçadinho de Bicicleta”, de 1967, que podem ver na exposição que está actualmente patente no Atelier-Museu, “Em Torno do Acervo II”, até final do mês de Setembro. O desenho em questão aparece no livro de poemas de Júlio Pomar “Alguns Eventos, editado pelas Publicações Dom Quixote, Lisboa, em 1992.

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"O Engraçadinho de Bicicleta", 1967

Lápis sobre papel

21 x 26,7 cm

Colecção Fundação Júlio Pomar / Acervo Atelier-Museu

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Texto de Ana Anacleto:

O ano de 1967 marca o momento em que Júlio Pomar realiza as primeiras assemblages produzidas a partir da aplicação directa na tela de objectos encontrados. Sendo considerado um acontecimento lateral, resultado de uma experiência de Verão, acaba por constituir-se como um momento com consequências (embora não imediatas) no curso da sua obra posterior. Nesta medida assistimos à aceitação, no contexto da sua obra, de um factor que vem a ser determinante nas suas realizações futuras: ‘o acaso’. A este propósito diz Pomar: “O acaso é o mais exigente dos meus colaboradores, e tão rigoroso que só raramente acontece” e ainda “O acaso é a mais rigorosa e sofisticada das possibilidades de calcular” .

À introdução do factor ‘acaso’, aliaríamos agora também a incorporação do factor ‘gesto’. Disso podemos ser testemunhas aquando da análise de importantes séries de desenhos (produzidas desde o final da década de 1950) – ora directamente ligados a obras literárias que lhes servem de referência, ora desligados destas mas surgindo a seu pretexto – cujas qualidades gráficas e expressivas evidenciam um renovado interesse pelo expressionismo, pelo abstracionismo e por uma elaboração definida tanto pela manualidade virtuosa quanto pelo ritmo rápido e sincopado da sua acção. Júlio Pomar fala de uma prática do desenho entendido como “escuta do traço”, do “traço justo (que) dá a forma”, numa busca de “identificar o traço e a respiração (…) e poder chegar à liberdade de uma total ausência de determinação”.

É justamente neste ano de 1967 que Júlio Pomar produz a obra sobre a qual nos debruçamos: “O Engraçadinho de Bicicleta” – um desenho a lápis de grafite sobre papel, elaborado segundo o próprio, a “pretexto de coisa nenhuma”. Mais um desenho, de entre tantos outros desenhos que ocupam o artista nesta fase e que resume, dizemos hoje, o conjunto de preocupações (estéticas, temáticas, plásticas, conceptuais) que pautavam a sua obra durante este período – o gesto, a síntese formal, a velocidade, o traço desvirtualizado, a aproximação a um registo quase infantil, o movimento físico (que, no fazer, implica mais do que a mão, alargando a sua acção ao corpo todo), a procura dos temas em torno de espectáculos de massas (multidões, praias, mercados, circos, grandes cidades, corridas de touros) e ainda e sempre as questões de composição e articulação dos elementos no plano da representação.

Num contexto crítico sob influência ainda do conflito entre abstracção e figuração, e onde a boa arte moderna se entendia enquanto valorização das formas puras, fruto de um informalismo gestual, implicando o abandono das referências ao mundo visível, a obra de Júlio Pomar era entendida como estando num território de “hesitação estética”, sendo alvo de uma “íntima contradição expressiva”. O artista assume, no entanto, a sua condição marginal, optando pelo “risco de uma posição solitária” e dá continuidade à produção de um conjunto de obras contaminadas tanto pelo real (fruto mais de vivências do que de observações) quanto pela matéria própria dos universos do desenho e da pintura.

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