Ainda sobre retratos realizados por Júlio Pomar, partilhamos um pequeno texto de Mariana Pinto dos Santos, enc…

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Ainda sobre retratos realizados por Júlio Pomar, partilhamos um pequeno texto de Mariana Pinto dos Santos, encomendado pelo Atelier-Museu Júlio Pomar, que nos elucida sobre vários desenhos/ retratos de Fernando Pessoa, esboçados no contexto da encomenda da decoração para a estação Alto dos Moinhos, pertencentes ao acervo do Atelier-Museu.

Texto de Mariana Pinto dos Santos:

"A encomenda da decoração para a estação Alto dos Moinhos do Metro surgiu em 1982, altura em que se pensara criar nessa zona da cidade de Lisboa um centro administrativo. O material cerâmico escolhido oferecia a Júlio Pomar uma superfície cujas possibilidades decorativas tradicionais têm por base uma relação com o desenho: a superfície em papel é dividida numa esquadria de maneira a que o desenho possa ser trasladado para os azulejos, compondo-se a imagem final pela montagem do puzzle dos vários fragmentos do desenho transpostos para os quadrados cerâmicos. Por outro lado, o local público de passagem diária fazia prever o aparecimento de garatujas nas paredes e a opção decorativa de Júlio Pomar para a estação foi no sentido de antecipar a vandalização, apresentando-se desde logo como um conjunto de graffiti espalhados pelos azulejos brancos. A ambiguidade entre o desenho e a caligrafia no graffiti fez Pomar relacionar esta manifestação de apropriação de paredes urbanas com a caligrafia oriental (de onde está ausente a distinção ocidental entre desenho e pintura), em que escrita e pintura têm relação íntima indissociável. Nessa caligrafia, que tanto marcou a sua obra pictórica e desenhada, encontra ainda em comum com o graffiti a rapidez de execução, só alcançável com um trabalho anterior de treino e repetição exaustivos. Foi assim que Júlio Pomar passou um ano a fazer desenhos, por vezes na horizontal, no chão (posição em que «se fica dentro da imagem», diz o pintor). O processo consistiu numa primeira fase executada a carvão, o que lhe permitia emendas, fixando depois o desenho num papel vegetal colocado em cima dos testes a carvão, através do uso de um marcador de feltro, por forma a alcançar um desenho com um traço que não se pode ocultar, e por isso já não permite emendas ou hesitações. O trabalho desenvolveu-se, segundo Pomar, numa lógica de «hipótese e verificação». O desenho final apresenta-se-nos, assim, límpido, assumido na sua execução fragmentária, por somatório de traços, cada um a «célula do desenho», nas palavras do pintor.

Camões, Bocage, Almada Negreiros e Fernando Pessoa foram escolhidos para habitar o lugar subterrâneo, não só em retrato, mas também em figuras aludindo à sua obra escrita e vida. Nestes retratos de Fernando Pessoa que fazem parte da colecção do Atelier-Museu Júlio Pomar, pode observar-se a alternância entre uma linha mais fina e outra mais grossa, que corrige e contém as linhas mais estreitas sem as eliminar. Pessoa surge triplicado, duplicado, à mesa de café, pensado nessas diferentes situações para dele irem aparecendo vestígios – traços – da sua vida de todos os dias ao longo do percurso debaixo da terra do Alto dos Moinhos. Não só há o desdobramento efectivo da figura de Pessoa nos retratos duplos e triplos, como o próprio traço que o desenha é heteronímico, colocando as personagens sempre em desdobramento potencial iminente. Nada se fixa, o desenho nasce de riscos sobrepostos e justapostos, que dessa acumulação fazem nascer a imagem.

Dois retratos de Fernando Pessoa representam-no a engraxar os sapatos, num deles mal se notando a criança que executa a tarefa, no outro com o poeta menos curvado sobre si e distinguindo-se feições, boné e o pé nu assente no chão do rapazinho ajoelhado. Lembra o relato de Ofélia Queiroz, no testemunho da sua convivência com Fernando Pessoa registado em 1978, quando conta que ele lhe dizia, quando ia engraxar os sapatos, para a fazer rir: «vou lavar os pés por fora»."

Fotografias: AMJP/ António Jorge Silva

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