Ainda em torno de “A Grande Escavação” (The Dig): três ideias para guionistas à procura delas (2) Aljubarrota…

Ainda em torno de “A Grande Escavação” (The Dig): três ideias para guionistas à procura delas
(2) Aljubarrota e as “covas do lobo”

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Contrariamente a outros, o fascismo português nunca deu grande importância à arqueologia, onde tudo lhe pareceria fragmentado, desinteressante, sem a monumentalidade dos castelos, nem a grandiloquência dos documentos. Uma excepção sobreveio, contudo, e bem se pode dizer que se tratou de "ir buscar lã e sair tosquiado". E bela estória daria, passada pouco depois de Sutton Hoo: falamos das escavações de Afonso do Paço no campo de batalha de Aljubarrota.

À época, a “história” de Aljubarrota estava já escrita, pela forma que a historiografia portuguesa, mergulhada em ambiente fortemente nacionalista, mais desejava contar. Tratava-se de uma versão colhida principalmente na Crónica de D. João, de Fernão Lopes, escrita cerca de 60 anos depois desse memorável dia 14 de Agosto de 1385. Não se referia aí a existência de quaisquer estruturas defensivas previamente preparadas pelos portugueses, dando até a entender que elas não existiriam e negando as referências do rei castelhano, em carta dirigida 15 dias depois da batalha ao concelho de Murcia, a diversos tipos de estruturas defensivas (uma “cava tã alta como un hombre hasta la garganta”), mais ou menos ardilosas, dissimuladas no subsolo. Informação também contida na crónica de “El Despensero Mayor de la Reyna D. Leonor”, onde se fala em “muchas fossas cubiertas con ramas”.

Estavam as coisas neste pé quando o Ministério do Exército entendeu por bem incumbir a Comissão de História Militar de escrever uma versão definitiva da batalha de Aljubarrota. Face à impossibilidade de harmonização de todos os textos disponíveis, e certamente na esperança de reconhecer, de uma vez por todas, que, tal como dizia Fernão Lopes, o campo de batalha de Aljubarrota não passava de uma “charneca rasa”, “um campo chão coberto por verdes urzes”, aquela comissão solicitou o apoio de um arqueólogo, tendo em vista a escavação do subsolo do local da batalha. Para o efeito é escolhido o Tenente-Coronel Afonso do Paço, militar distinto, nacionalista convicto e arqueólogo pré-historiador, cujos méritos tinham já sido postos à prova em numerosos locais, de que cumpre salientar o povoado fortificado de Vila Nova de S. Pedro (e seria de no mesmo enredo incluir também este sítio notável, com as suas vagonetas e a intensa participação popular onde um arqueólogo militar e um arqueólogo padre se completavam e inseriam na pobreza geral que os rodeava).

Afonso do Paço parte entusiasmado e consciente da responsabilidade da sua intervenção: “Habituados na Pré-história a lançar mão de todos os recursos científicos para um melhor conhecimento da vida dos povos primitivos, também quisemos em Aljubarrota proceder de igual modo, para tentar esclarecer alguns dos problemas ligados com a batalha”; “a escavação em curso ou qualquer trabalho com ela relacionado, não pode ser confiado à ciência de picareta de um obreiro” – são algumas das expressões que utiliza para manifestar o rigor científico que sentia ser-lhe exigido.

Começados os trabalhos na plataforma superior do campo de batalha, nas imediações da ermida de S. Jorge, provavelmente edificada em 1393, no local onde estaria o núcleo central do exército português, depressa se descobre um grande fosso com a largura de 80 cm na base. Devido aos trabalhos agrícolas durante os 565 anos que tinham decorrido desde a batalha, este fosso apenas era já detectável pelo corte que havia feito numa camada dura de saibro claro, subjacente à terra humosa, de côr escura. Somando a espessura desta camada de remeximento à que subsistia da camada de saibro, Afonso do Paço calcula que o grande fosso deveria ter cerca de 1,50 metro de profundidade. E pela continuação das escavações define-lhe a extensão total: cerca de 180 metros.

A localização do fosso citado, envolvendo o flanco esquerdo do que deveria ser a posição do exército português e estreitando em direcção do sul, por onde se faria a chegada dos castelhanos, levou a ampliar as áreas escavadas até este último sector. E aqui se encontrou o mais interessante e complexo sistema defensivo: as chamadas “covas do lobo”. Distribuídos numa área de cerca de 150 metros no sentido norte-sul e de 100 metros no sentido este oeste, registava-se no terreno os restos abertos no saibro de buracos de dimensões muito variadas, sem quaisquer vestígios de estacas no fundo. No total foram escavados 830 buracos deste tipo, mas Afonso do Paço calcula que houvesse mais de um milhar. A sua disposição obedecia a um plano bem concebido: encontravam se escavados a espaços regulares, em fiadas (cerca de 40 fiadas), orientadas em forma de espinha para um fosso central que percorria transversalmente o corredor de entrada dos castelhanos, o qual era sublinhado por fossos idênticos de ambos os lados.

Não foram poucos os que procuraram negar o valor dos documentos arqueológicos. Ao que Afonso do Paço respondeu com a minúcia que é lhe era familiar nos estudos de Pré-história. O grande fosso poderia talvez não passar de uma obra hidráulica, diziam uns? Então porque não apresentava sinais de circulação de águas e acabava em zonas de terreno mais elevadas do que a parte central? Sendo estruturas militares, tanto o fosso como as “covas do lobo” deveriam ser ulteriores à batalha, na perspectiva de novas investidas castelhanas, diziam outros? Então porque se encontravam no fundo desses buracos e especialmente nas “covas do lobo”, situadas a sul, numerosas pedras pequenas de calcário, estranhas ao local e com sinais de terem estado expostas às intempéries durante muito tempo, confirmando a informação dos cronistas de que os portugueses iniciaram o combate atirando chuvas de pedras sobre os atacantes?

Mas as preocupações de Afonso do Paço não se ficaram por aqui. A descoberta próximo de ermida de S. Jorge de uma vala com restos ósseos de cerca de 400 indivíduos levou-o a pedir o apoio de antropólogos que lhe confirmaram serem despojos apenas de adultos, assim reforçando notavelmente a ideia de se tratar de restos de combatentes, recolhidos em algum momento avançado depois da batalha. A procura da confirmação da cobertura vegetal do terreno levou-o a pedir a ajuda de palinólogos, que analisaram amostras recolhidas por baixo das lajes da capela-mor da ermida, o único local onde o solo original se tinha conservado até à actualidade, assim confirmando a ocorrência abundante de urzes. Daqui retirou Afonso do Paço a conclusão de que o solo subjacente seria húmido e fácil de escavar, permitindo dar resposta a outra das objecções levantadas: como poderiam as forças portuguesas, em tão pouco tempo, abrir tão elaborada estrutura defensiva. A pressa com que tudo foi feito, era aliás evidenciada por diversos pormenores da escavação: a forma das paredes das valas, o seu alinhamento, etc.

Afinal, a Arqueologia acabava, em Aljubarrota, de obrigar a reescrever a história, sendo de louvar a honestidade científica de um arqueólogo, pré-historiador de formação, que ousou pôr a evidencia dos factos à frente das suas próprias convicções fortemente nacionalistas. Perdeu amizades, entre camaradas de armas e de ideologia salazarista. Mas como ele próprio disse: “Tem-se a noção de que o notável documento que nos proporcionou uma visão exacta da batalha, se tornou para muitos num pesadelo. Contudo há necessidade de repôr a História no seu devido lugar, depois de cinco séculos e meio de ideias menos verdadeiras. Em Aljubarrota já não se pode voltar atrás. É a verdade histórica e o brio da Nação que o exigem”.


Nas fotos: as “covas do lobo” e visitas a Aljubarrota (Afonso de Paço surge à civil de boina na cabeça); tal como na foto de grupo com o povo escavador em Vila Nova de S. Pedro.




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